SULear vs NORTEar

 

ORIENTar-se em qualquer parte do Planeta, é tomar a direção do lado do nascente do Sol, ou seja, a direção do ORIENTE.

A regra prática diz que se deve estender a mão direita para o lado do Sol nascente para, por um processo mnemônico, associar as outras direções do corpo aos outros pontos cardeais.

Essa é a regra prática para quem vive no Hemisfério Norte e que, portanto, se NORTEia à noite. O português parece ser a única língua que possui a palavra nortear.

 

No Hemisfério Sul, sabemos que à noite, não se vê a Estela Polar.

Devemos – ao contrário do que nos é ensinado - dirigir o nosso olhar para o Cruzeiro do Sul, o que significaria SULear-se em vez de NORTEar-se. Dessa referência noturna, também se pode deduzir os outros pontos cardeais. Para adequarmos nossa orientação ao hemisfério em que vivemos a regra prática deve se inverter.

Aponta-se o braço esquerdo para o lado do nascente para, à noite, estarmos de frente para o Sul e podermos observar a constelação do Cruzeiro do Sul.

 

As relações Sociedade/Natureza e Norte/Sul, assim como a hegemonia do Hemisfério Norte, integram algumas das discussões presentes no “site”.
Essas preocupações sobre a referência ao Hemisfério Sul, têm motivado várias manifestações, entre as quais as do artista Uruguaio Joaquin Torres Garcia (1874-1949), com a proposta da “Escola do Sul” da qual é significativo o trecho que se segue.


A Escola do Sul -
La Escuela del Sur

Joaquin Torres Garcia
(1935)


"Uma importante escola de arte teve que ser criada aqui em nosso país. Digo sem nenhuma hesitação: aqui em nosso país. E tenho mil razões para afirmá-lo.

Disse Escola do Sul, porque em realidade, nosso norte é o sul. Não deve haver norte, para nós, a não ser por oposição ao nosso Sul.

Por isso, agora colocamos o mapa ao inverso e então temos justa idéia da nossa posição, e não como querem no resto do mundo. A ponta da América, desde já, prolongando-se, assinala insistentemente o Sul, nosso norte. Igualmente a nossa bússola: inclina-se imperdoavelmente sempre para o Sul, para o nosso pólo.

Os navios, quando partem daqui, descem, não sobem como antes, a fim partirem para o norte. Porque o norte agora está abaixo. O nascente, posicionando-nos de frente para o nosso sul, está à nossa esquerda.

Esta retificação era necessária; por isso agora nós sabemos onde estamos. (...)”

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